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RS precisaria construir tubulação maior que a distância até o Japão para cumprir meta de saneamento; entenda

Estado precisa ampliar a rede de esgoto em 18 mil quilômetros para cumprir a meta de universalização do saneamento até 2033 Reprodução/RBS TV A água desa...

RS precisaria construir tubulação maior que a distância até o Japão para cumprir meta de saneamento; entenda
RS precisaria construir tubulação maior que a distância até o Japão para cumprir meta de saneamento; entenda (Foto: Reprodução)

Estado precisa ampliar a rede de esgoto em 18 mil quilômetros para cumprir a meta de universalização do saneamento até 2033 Reprodução/RBS TV A água desaparece pela descarga e pouca gente pensa para onde ela vai. Mas quando esse caminho não existe (ou não funciona), os impactos aparecem rapidamente: rios poluídos, doenças, prejuízos econômicos e até mortes. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp No Rio Grande do Sul, apenas um quarto do esgoto gerado recebe tratamento adequado. Enquanto isso, o estado tenta cumprir uma meta ambiciosa: aumentar o tratamento para 90% até 2033. Para atingir o objetivo, é necessário construir aproximadamente 18 mil quilômetros de novas redes de esgoto até o prazo. A distância equivale, aproximadamente, a uma viagem entre Porto Alegre e Tóquio, no Japão. Agora no g1 A meta faz parte do Marco Legal do Saneamento, que determina que, até 2033, 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% conte com coleta e tratamento de esgoto. Mas por que o Estado ainda está tão distante desse objetivo? E por que uma infraestrutura que influencia diretamente a saúde, o meio ambiente e a economia continua sendo tão pouco discutida? Para responder essas perguntas, a RBS TV visitou comunidades, obras, estações de tratamento e ouviu especialistas para entender os desafios e as soluções que podem transformar uma das áreas mais atrasadas da infraestrutura brasileira. São dezenas de entrevistas, dados, personagens e explicações técnicas no especial "O Futuro é Básico", que vai ao ar neste domingo, 7h25, na RBS TV. Estado precisa ampliar a rede de esgoto em 18 mil quilômetros para cumprir a meta de universalização do saneamento até 2033 Reprodução/RBS TV O que acontece depois que você dá descarga? Depois de desaparecer pelo vaso sanitário, pela pia da cozinha ou pelo ralo do banheiro, o ideal é que a água siga por uma rede subterrânea de tubulações até uma estação de tratamento. Nas estações, grades retiram resíduos descartados de forma incorreta, como pepel higiênico, cotonetes, absorventes, lenços umedecidos e outros materiais que nunca deveriam chegar ao sistema de esgoto. Depois, bactérias consomem a matéria orgânica do esgoto. Ao longo de aproximadamente 90 horas, o efluente passa por diferentes processos físicos e biológicos até atingir condições adequadas para ser devolvido ao meio ambiente. O problema é que esse caminho ainda não existe para milhões de gaúchos. Em muitas cidades, o esgoto sequer chega a uma estação de tratamento. Acaba sendo lançado diretamente em arroios, rios ou infiltrando no solo, contaminando a água e aumentando o risco de doenças. O que é saneamento básico? Saneamento básico vai muito além da coleta de esgoto. O conceito é mais amplo - reúne quatro áreas essenciais: abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgoto, manejo de resíduos sólidos (o lixo) e drenagem das águas da chuva. Na prática, é o conjunto de serviços que garante água de qualidade, reduz o risco de doenças, evita enchentes e protege o meio ambiente. No Rio Grande do Sul, o maior desafio está na coleta e no tratamento de esgoto. Hoje, cerca de 86% da população tem acesso à água tratada. Já a coleta de esgoto ainda está muito distante da meta nacional. Apenas 34% da população é atendida por rede coletora. E, de todo o volume de esgoto gerado no Estado, somente cerca de 25% recebe tratamento antes de retornar ao meio ambiente. Especialistas afirmam que o atraso é resultado de décadas de investimentos insuficientes. Enquanto obras como estradas, viadutos e pontes são facilmente percebidas pela população, as redes de esgoto permanecem escondidas debaixo da terra. Além disso, são intervenções caras, demoradas e que costumam causar transtornos durante a execução. Segundo o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Salatiel Silva, existe outro fator importante: historicamente, o esgoto recebeu menos atenção do que o abastecimento de água. "O esgoto e a drenagem urbana são os primos pobres do saneamento", resume. Muito além do cheiro ruim Quando o esgoto não recebe tratamento adequado, os impactos aparecem primeiro na saúde. A principal doença associada à falta de saneamento continua sendo a diarreia. Mas ela costuma ser invisível. Médicos ouvidos pela reportagem dizem que ela costuma ser subestimada porque, na maioria dos casos, as pessoas não procuram atendimento de saúde. Isso significa que boa parte das consequências da falta de saneamento sequer aparece nas estatísticas oficiais. Outras doenças também estão relacionadas ao contato com água contaminada, como hepatite A, leptospirose e diversas infecções provocadas por vírus, bactérias e parasitas. Os impactos atingem especialmente crianças. Além das infecções, estudos mostram que a ausência de saneamento pode comprometer o desenvolvimento infantil, aumentar faltas escolares e afetar a qualidade de vida das famílias. O desafio é maior no interior A realidade do saneamento é ainda mais desafiadora para quem vive no campo. Em muitas comunidades rurais, não existe rede de coleta de esgoto nem abastecimento com água tratada. A alternativa costuma ser captar água de poços e destinar o esgoto a fossas ou sistemas individuais. Essa rotina também criou uma percepção comum entre muitos moradores: a de que a água de poço tem mais qualidade. "Realmente é 100% melhor", diz a diarista Carla Rodrigues, moradora do interior de Guaíba, ao comparar o sabor da água de poço com o da água distribuída pela rede pública. Ela tem a percepção de que a água tratada tem gosto de produtos químicos. Mas especialistas alertam que sabor não é sinônimo de qualidade. Segundo o coordenador da Vigilância em Saúde de Guaíba, Fábio da Costa, a água captada em poços rasos pode sofrer contaminação por micro-organismos presentes no solo, principalmente em locais onde há criação de animais ou descarte inadequado de esgoto. "Nós identificamos, sim, a presença de micro-organismos relacionados à contaminação do solo", explica. Entre as doenças que podem estar associadas ao consumo de água contaminada estão hepatite A, leptospirose e infecções gastrointestinais. Um investimento que também protege rios e movimenta a economia Os benefícios do saneamento não ficam restritos às casas. Quando o esgoto é lançado sem tratamento, rios e arroios recebem uma carga de matéria orgânica que reduz o oxigênio disponível na água e compromete a vida aquática. Também aumenta o custo para tratar a água que depois volta às torneiras da população. Os impactos aparecem na saúde pública, no turismo, na valorização dos imóveis e até na atração de novos investimentos. Mais do que um desafio de engenharia, a universalização do saneamento depende de uma mudança de percepção. Como as redes ficam enterradas, as obras costumam causar transtornos antes de trazer resultados e, por isso, nem sempre recebem a atenção da população ou dos gestores. "Muitas vezes o saneamento é visto como algo que vai quebrar o pavimento e atrapalhar o trânsito. É algo que não dá voto", resume a presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto. O desafio, segundo ela, é fazer com que a sociedade enxergue que, por baixo das ruas, está uma infraestrutura que influencia praticamente todos os aspectos da vida: da saúde à economia, da educação ao desenvolvimento das cidades. Um estudo do Instituto Trata Brasil estima que, no Rio Grande do Sul, cada R$ 1 investido em saneamento gera um retorno de R$ 4,80 para a sociedade. Até 2033, a expansão do serviço pode representar uma economia de R$ 921 milhões em gastos com saúde, além de ganhos de produtividade estimados em R$ 23 bilhões, valorização imobiliária de quase R$ 2 bilhões e um impacto positivo de R$ 3,5 bilhões no turismo. O começo da solução Construir uma rede de esgoto equivalente à distância entre Porto Alegre e Tóquio exige mais do que recursos financeiros. Em Esteio, a Corsan criou um Parque de Infraestrutura e Inovação que concentra fábrica de tubos, usina de asfalto, laboratório de solos e produção de insumos para tratamento de água. A ideia é acelerar as obras, reduzir custos logísticos e aumentar a capacidade de execução necessária para cumprir a meta de universalização do saneamento até 2033. "São investimentos que chegam na ordem de 15 bilhões de reais na parte de saneamento básico. A gente trouxe uma tecnologia robusta, inédita no Brasil. Somos pioneiros no país no que tange esse parque tecnológico", afirma o diretor executivo Victor Hugo Barros Gabriel. VÍDEOS: Tudo sobre o RS